Síndrome Dolorosa Trocantérica: por que a “bursite do quadril” quase nunca é apenas bursite?
A síndrome dolorosa trocantérica (SDT), também conhecida internacionalmente como Greater Trochanteric Pain Syndrome (GTPS), é uma das causas mais comuns de dor lateral no quadril. Apesar de tradicionalmente chamada de bursite trocantérica, estudos atuais mostram que, na maioria dos casos, o problema não está apenas na inflamação da bursa, mas principalmente em uma tendinopatia dos glúteos médio e mínimo, frequentemente associada a degeneração tendínea e sobrecarga mecânica. Essa mudança de entendimento é fundamental para melhorar o diagnóstico e, principalmente, o tratamento.
Do ponto de vista anatômico, a SDT envolve as estruturas peritrocantéricas — especialmente os tendões abdutores que se inserem no grande trocânter do fêmur. A disfunção desses tendões leva a dor, perda de força e alterações da biomecânica da marcha. Fatores como sexo feminino, obesidade, lombalgia associada, alterações do eixo dos membros inferiores e sobrecarga esportiva aumentam o risco. A prevalência é significativa, principalmente em mulheres entre 40 e 60 anos, tornando-se uma das principais causas de dor crônica no quadril nessa faixa etária.
Clinicamente, a dor no lado do quadril, pior ao deitar sobre o lado afetado ou subir escadas, é característica. O exame físico revela dor à palpação do trocânter maior e fraqueza dos músculos abdutores. Testes como o single-leg stance test e o FABER podem reproduzir sintomas. A ressonância magnética e a ultrassonografia musculoesquelética ajudam a identificar tendinopatia glútea, roturas parciais e espessamento da bursa, mas o diagnóstico permanece essencialmente clínico — um ponto crucial para evitar exames desnecessários e overdiagnosis.
As evidências científicas atuais, incluindo revisões sistemáticas indexadas no PubMed, reforçam que o tratamento conservador é a primeira linha terapêutica. Programas estruturados de fisioterapia com foco em fortalecimento progressivo dos abdutores, controle de carga e correção biomecânica apresentam melhores resultados a médio e longo prazo quando comparados a infiltrações isoladas com corticosteroide. A educação do paciente sobre manejo de carga e modificação de atividades é parte central do tratamento moderno.
Nos últimos anos, os ortobiológicos ganharam espaço no manejo da síndrome dolorosa trocantérica, especialmente em casos refratários ao tratamento convencional. O plasma rico em plaquetas (PRP) tem sido estudado como alternativa às infiltrações com corticoide, com evidências mostrando melhor resposta clínica sustentada em médio prazo, particularmente em pacientes com tendinopatia glútea crônica. O racional biológico está na liberação de fatores de crescimento que estimulam reparo tecidual e modulação inflamatória.
Além do PRP, o aspirado concentrado de medula óssea (BMA – Bone Marrow Aspirate) representa uma estratégia ainda mais avançada dentro da medicina regenerativa. Rico em células mesenquimais e citocinas bioativas, o BMA busca potencializar a regeneração tendínea em casos de degeneração mais avançada ou roturas parciais. Embora os estudos ainda sejam heterogêneos e em expansão, resultados preliminares indicam melhora funcional e redução da dor em pacientes selecionados, reforçando a importância de indicação criteriosa baseada em evidência científica.
É importante destacar que os ortobiológicos não substituem a reabilitação, mas atuam como terapia adjuvante em protocolos multimodais. O sucesso depende de diagnóstico preciso, escolha adequada do paciente e integração com fisioterapia especializada. Guidelines internacionais e revisões recentes reforçam que a abordagem individualizada é superior a protocolos padronizados indiscriminados.
Conclusão — Opinião do especialista
Como ortopedista e professor, considero que a maior evolução no entendimento da síndrome dolorosa trocantérica foi reconhecer que estamos lidando principalmente com uma tendinopatia do quadril e não apenas com uma bursite inflamatória simples. Esse conceito muda completamente o raciocínio terapêutico. A integração entre reabilitação baseada em evidência e terapias ortobiológicas, como PRP e BMA, representa um avanço promissor, mas deve ser aplicada com critério científico e indicação individualizada. O futuro do tratamento do quadril passa pela medicina personalizada — e a SDT é um excelente exemplo dessa transição.
Referencias Bibliográficas
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